quinta-feira, 16 de abril de 2009

Habeas Corpus

A afirmativa de que não há muita diferença entre estar recluso em uma cadeia de segurança máxima e estar livre seria absurda, apenas em primeira instância; um olhar mais aguçado pode revelar profunda e assustadora semelhança. De antemão, preciso de um habeas corpus.
Nós, os livres, estamos presos ao secularismo promovido e plenamente aceito na sociedade cristã em que vivemos; o ano regido pelo calendário gregoriano nos impõe sistematicamente os grilhões de uma comemoração após a outra; Um habeas corpus, por favor.
Páscoa que se resume a ovos de chocolate; depois dia das mães, quem não der presente é praticamente um assassino; dia dos namorados, no motel senão é chifre na certa; dia dos pais, igual ao das mães; dia da criança sem brinquedo é sacrilégio; e então a mais esperada de todas, o famigerado natal e se alguém se arriscar a não se compadecer de outrem é digno de pena capital. Alguém aí já entrou com meu habeas corpus?
Como já estamos no rescaldo dos ovos de páscoa, e este é assunto passado, atenhamo-nos apenas àquele último; com a licença de todos, quem inventou essa coisa de espírito de natal que o introduza nas próprias entranhas, com o peru recheado e tudo mais, sem trocadilho.
Se você não achar que esta é a melhor época do ano, se não fizer algum tipo de caridade, não der mais esmola no semáforo, se não comprar presentes para os sobrinhos distantes, não contribuir na campanha natal-sem-fome, não for à “imundiça” da ceia de natal, e finalmente se não praticar a glutonaria... Pasme!!! Você não é um cristão.
Observando friamente, em relação ao natal, as coisas estão exatamente em seu devido lugar, pois, o nascimento do Cristo não se deu em 25 de dezembro, foi em Setembro; nesta data celebra-se a festa do deus-sol, mas e daí? Comemore, você não é cristão mesmo, ou é?
Ainda preciso de um Habeas Corpus, agora então...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Aforismos Sobre Discurso e Conhecimento



A falta de ininterrupta pesquisa e estudo daquilo que se propõe a fazer leva invariavelmente a um fenômeno que denomino de Impropriedade, que é caracterizado pela total insensibilidade em relação à real necessidade do público alvo e conduz à ausência de certo sentido do que é aplicável.

A mediocridade é resultado do abandonar dos livros após a graduação.

O discurso infundado e a dificuldade de escrever sobre determinado tema são os frutos do pouco ler.

O senso comum pouco discerne e é facilmente ludibriado pelo sofista. Ambos estão perdidos no labirinto da ignorância; aquele jamais se encontrará, este não quer ser encontrado.

É perda de tempo esperar evolução daquele que imagina ser suficiente o que já aprendeu.

Há verdades que são mais bem reconhecidas por cabeças medíocres, por lhes serem as mais adequadas.

O maior erro de um discursante é subestimar a inteligência de seu público, acreditando que o fato de ter obtido um diploma lhe confira qualquer autoridade.

A mera impostação vocal, por mais dramática que seja não esconde a inconsistência de um discurso.

A ausência de embasamento e fundamentação conduzem o discurso ao apelo emocionalmente afetado e desprovido de discernimento.

sábado, 11 de abril de 2009

Um Amigo

Este é o último texto da quase involuntária trilogia “UM”, composta por Um Princípio, Um Sofista e agora Um amigo.

Diz uma lenda árabe que dois amigos viajavam pelo deserto, e em determinado ponto da viagem discutiram e um alvejou o outro com soco certeiro. Ofendido, sem nada a dizer e ainda caído, escreveu na areia:

HOJE, MEU MELHOR AMIGO ME BATEU NO ROSTO

Seguiram e chegaram a um oásis, onde resolveram tomar um banho. O que havia sido esbofeteado começou a afogar sendo salvo pelo amigo. Ao recuperar-se, pegou um ponteiro e escreveu numa pedra:

HOJE, MEU MELHOR AMIGO SALVOU-ME A VIDA

Intrigado, o amigo perguntou:
- Por que depois que te bati, você escreveu na areia e agora escreves na pedra?
A resposta foi:
- Quando alguém nos ofende, devemos escrever na areia, onde o vento do esquecimento e do perdão se encarrega de apagar; porém quando alguém nos faz algo grandioso, devemos gravar na pedra da memória do coração, onde vento nenhum do mundo poderá apagar.

Lembrei desta lenda quando, ontem, um grande amigo me contou que alguém lhe causara um prejuízo de proporções consideráveis, mas mesmo assim resolvera perdoar e esquecer. O fato de o valor do prejuízo fazer grande diferença em seu orçamento torna a atitude muito mais que rara, nobre; e me faz ter a convicção de que uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos tempos foi me deixar afetar por tão majestosa amizade, daí só tenho a inferir a seguinte ilação sobre amigo:
Amigo é quem te dá um pedaço do chão, quando é de terra firme que você precisa, ou um pedaço do céu, se é o sonho que te faz falta; É mais que ombro amigo, é mão estendida, mente aberta, coração pulsante, costas largas. É quem tentou e fez, e não tem o egoísmo de não querer compartilhar o que aprendeu. É aquele que cede e não espera retorno porque sabe que o ato de compartilhar um instante qualquer contigo já o alimenta e satisfaz. É quem já sentiu ou um dia vai sentir o mesmo que você.
É a compreensão para o seu cansaço e a insatisfação para a sua reticência.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Um Sofista

A retórica exerce a persuasão por meio de um discurso. Não se recorre a um experimento empírico nem à violência, mas procura-se ganhar a adesão intelectual do auditório apenas com o uso da argumentação; Neste sentido, preocupa-se mais com a adesão do que com a verdade. O objetivo daquele que a exerce é obter o assentimento do auditório à tese que apresenta, assim, a verdade ou falsidade da mesma é uma questão secundária; A retórica se utiliza da linguagem comum do dia-a-dia, e não de uma linguagem técnica ou especializada e é neste ponto em que os sofistas se valem da ignorância do senso comum, quando não se limitam a transmitir noções neutras e assépticas, mas têm sempre em vista um determinado comportamento concreto impressionativo resultante da persuasão por ela exercida.
Sofistas se valem de adornos empolados e pomposos em seu discurso com o mero, porém floreado, objetivo de causar comoção ao ouvinte e antes de tudo encobertar a infantil fraqueza de seu argumento.

Um sofista, para fugir da mediocridade, deve ao mínimo instruir-se para não ser execrado e ainda assim continuar seduzido pela ilusão da própria ignorância.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Um Princípio

Tenho uma certa aversão a textos conceituais, pois normalmente se tornam chatos como aulas expositivas, por este motivo ofereço a meus caros leitores a liberdade de desistir de ler antes do final, mas a abordagem é inevitável.

Para uns ética e moral são sinônimos, alguns outros inferem conceitos diferenciados, porém dotados de cerne único; para o senso comum a ética será estudada em um futuro incerto, como objeto de uma teoria a respeito de uma coisa que dificilmente será utilizada; já a moral, também para o senso comum, se refere unicamente a assuntos relacionados a sexo e como tal deve ficar reclusa a quatro paredes, que são capazes de ocultar as mais variadas perversões e desvios psíquicos, não que estes sejam totalmente ruins, mas maculam e despem de forma irreversível, imagens outrora enganosamente vendidas.
Tanto uma quanto a outra fazem parte do universo de valores da sociedade livre, mais, se referem a comportamentos relativos ao convívio social, o que as estabelece no mesmo âmbito, tornando aceitáveis as primeiras inferências aqui citadas.
A moral está ligada ao contexto de determinado grupo social, são padrões aceitáveis de comportamento restrito exclusivamente àquela sociedade. A ética transcende as delimitações culturais das sociedades fechadas, mais que um valor social é um valor humano, fato que automaticamente promove a um Princípio.
A ética é uma só, invariável, e vale para todos os humanos, já a moral é dotada de subjetividade adaptada às várias nuances culturais e, portanto, impassível de julgamentos.
A interpretação equivocada destes dois valores é, conclusivamente, a raiz de todo preconceito, abstraídos os aspectos das ditas minorias, pois se aborda aspectos morais com visão ética.
 
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